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Um ano da Lei SAF no Brasil: o que mudou e perspectivas

  • Carlos Vinícius
  • 21 de nov. de 2022
  • 5 min de leitura

Tendência atual no futebol nacional, equipes administradas por empresas trazem uma revolução na forma de gerir um clube no país


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Reprodução: Lucas Figueiredo/Agência Brasil

Aprovada pelo Congresso Nacional em agosto de 2021, a Lei das Sociedades Anônimas de Futebol (SAFs) permitiu pela primeira vez que empresas pudessem gerir clubes brasileiros. Um modelo que se difere do associativo, historicamente permitido pela legislação brasileira, em que cada um dos clubes são organizações privadas sem fins lucrativos formados por sócios, encarregados pela escolha de cargos no Conselho Deliberativo, como o de presidente.


Em vigor há mais tempo na Europa, a SAF representou uma importante mudança para os clubes europeus e foi responsável por profissionalizar a gestão financeira, ao permitir a aquisição de associações por investidores terceiros. Um recurso que teve resistência no Brasil por tirar o poder concentrado nas mãos dos sócios representantes e entregá-lo para o proprietário do clube vendido.


No entanto, as SAFs surgem em território nacional como resultado de uma pressão imposta como alternativa para a salvação de equipes tradicionais mergulhadas em dívidas e crises financeiras. Entre 2020 e 2022, a segunda divisão do Campeonato Brasileiro contou com a participação de diversas equipes consideradas “grandes” no futebol brasileiro, inclusive com a permanência de alguns desses clubes, um reflexo direto da má administração associativa.


Em apenas um ano, o Brasil já possui 24 SAFs criadas por clubes de diferentes divisões, sendo mais conhecido o caso de equipes tradicionais como o Cruzeiro, Botafogo e Vasco. Todos esses possuem passagens recentes pela segunda divisão do futebol nacional e um histórico permeado por dívidas altas e salários atrasados dos funcionários.


Cruzeiro e a compra pela Tara Sports


Pioneiro no Brasil, o Cruzeiro foi o primeiro clube a ser adquirido após a aprovação da Lei da SAF, por um investimento no valor de 400 milhões de reais, em dezembro de 2021. Seu acionista majoritário é o ex-jogador e campeão pela Seleção Brasileira, Ronaldo Fenômeno, dono da Tara Sports e também proprietário do Real Valladolid, clube espanhol.


A curto prazo, o novo modelo já tem trazido benefícios ao Cruzeiro. Após permanecer por três anos consecutivos na segunda divisão brasileira, o clube conseguiu sacramentar o retorno à elite nacional, sendo o atual campeão da Série B. Através de uma política de corte de gastos, Ronaldo montou um elenco mais qualificado que permitiu alcançar esse feito.


Campeão duas vezes da Libertadores, quatro vezes do Campeonato Brasileiro e seis vezes da Copa do Brasil, o projeto de SAF do Cruzeiro pretende retomar o protagonismo do clube no futebol brasileiro.


Botafogo e a compra pela Eagle Holdings


Com estudo aprofundado para se tornar SAF, o Botafogo oficializou 90% de sua venda para a Eagle Holdings em março de 2022, com um aporte de 400 milhões de reais. O proprietário da empresa é John Textor, também dono do clube inglês Crystal Palace, que já demonstrou estar conectado com a atmosfera do clube.


Quando foi anunciada a compra, o Botafogo vivia um cenário de equipe recém-promovida à primeira divisão nacional. O objetivo de se manter na elite foi alcançado e houve a conquista de uma vaga na Copa Sul-americana, competição continental.


A expectativa é de maiores investimentos no clube a partir do próximo ano, o principal objetivo é tornar o Botafogo mais competitivo nos campeonatos que irá disputar.


Vasco e a compra pela 777 Partners


Em uma transação mais recente, ocorrida em setembro de 2022, a empresa de investimentos especializada em serviços financeiros 777 Partners adquiriu 70% das ações do Vasco da Gama por um valor de 700 milhões de reais, cujo dono é Josh Wander, proprietário de outros clubes, como o italiano Genoa e o belga Standard Liege.


A realidade vivida pelo Vasco é de um clube que busca passar por uma reconstrução após anos de situação financeira delicada, que o colocou à margem da falência. Com uma negociação mais tardia, os efeitos práticos da nova administração devem ser sentidos apenas no futuro, porém, o clube já conseguiu encaminhar a volta à primeira divisão e terá o propósito de manutenção. O capital a ser investido possibilita uma campanha mais estável.


Mudanças para o futuro do futebol brasileiro


Com um número crescente de equipes estruturadas financeiramente, a tendência é ter um campeonato brasileiro mais disputado no futuro. Outros clubes também enxergam a SAF como uma alternativa viável para o seu desenvolvimento, o Bahia possui negociações avançadas com o grupo do time inglês Manchester City, enquanto o Atlético Mineiro também estuda passar pelo mesmo processo.


Embora garanta estabilidade financeira, aderir ao modelo SAF não traz a certeza de um futuro com títulos e sucesso esportivo garantidos, são inúmeros os casos ocorridos na Europa de clubes administrados por empresas que sucumbiram após a compra, é o caso do Parma, equipe italiana rebaixada devido à má gestão e Manchester United, marcado por um desempenho esportivo ruim. No caso do Brasil, existem clubes associativos que também prosperaram com o modelo, como é o caso de Flamengo e Palmeiras, que atualmente colhem os frutos de uma boa administração e são as duas maiores potências esportivas do futebol brasileiro.


Fábio Mário Iorio, professor de Jornalismo Esportivo da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), comentou a diferença existente entre o modelo associativo e o de SAF. “Um sistema pode ser implantado e consolidado mesmo que não seja favorável a todos, sendo assim, SAF deve ser entendida em sua lógica empresarial e seu resultado social. No capitalismo, há atualmente dois sistemas: clube empresa e clube de associado, sendo o primeiro recente, ligado ao marketing esportivo e agora à SAF. O segundo caso é tradicional e está com dificuldades de sobrevivência no avanço dos negócios esportivos”.


Iorio também demonstrou sua visão pessimista frente ao novo modelo e criticou suas intenções com a compra dos clubes: “Prefiro o clube de associados, democrático, de raízes locais e tendo na base de formação de atletas sua principal fonte de sustento, inclusive para o marketing esportivo e a justificativa social da intervenção do Estado. A SAF é privatista, tem lavagem de dinheiro e sem compromissos comunitários”, concluiu.


Para alguns torcedores, no entanto, a SAF é vista com um olhar mais otimista e como solução para problemas estruturais de seu clube. José Carlos, de 70 anos, é torcedor do Botafogo e enxerga a venda do time como uma oportunidade de dias melhores no futuro: “Vivi e pude ver o auge do meu time, algo que a nova geração com certeza não sabe o que é de perto. Há muitos anos o Botafogo já não é mais um time competitivo, acredito que agora com um dono investindo dinheiro no clube, a possibilidade de voltar a ganhar títulos é maior”, declarou.


Ainda levará alguns anos para colocar na balança se o modelo da SAF terá mais efeitos positivos ou negativos para o futebol brasileiro, o certo é que apenas com um ano de lei, a medida já possui ares revolucionários na área esportiva, trazendo de volta ao certame equipes tradicionais que antes estavam adormecidas.


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