Pomadas modeladoras tem circulação suspensa pela Anvisa
- Emilly Veiga & Lyandra Pralon
- 4 de fev. de 2023
- 4 min de leitura
Atualizado: 7 de fev. de 2023
Estudante relata que teve os olhos feridos após uso do produto para cabelo; depois de 200 casos, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária proibiu 18 pomadas de diferentes marcas.

“A enfermeira mal olhou minha trança e já perguntou se eu tinha passado alguma pomada, quando eu disse que sim, ela falou que já imaginava e que eu estava com uma queimadura muito grave no olho direito”, relata Isabela Lima Resende, estudante de Relações Públicas, vítima de uma das pomadas capilares modeladoras que causam cegueira.
Neste mês, a Secretaria de Saúde do Rio de Janeiro emitiu um alerta sobre os riscos do uso da pomada para o cabelo, após a notificação de 195 casos de cegueira temporária e queimaduras nas córneas, entre 25 de dezembro e 2 de janeiro.
Depois de relatos de clientes com diversos problemas de saúde, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) anunciou a proibição da fabricação de diversas pomadas capilares para modelar tranças. Os produtos já estavam com a venda suspensa, mas tiveram suas fabricações desautorizadas por não cumprirem as normas sanitárias previstas.
A pomada utilizada por Isabela, da marca Dú Chapeú Hair, consta na lista divulgada pela Anvisa, mas com um novo nome. A estudante conta que confiava na marca e não achava que oferecia riscos. “Para mim, por ser dessa empresa, que é tão confiável, grande e renomada no mercado, principalmente pelas mulheres negras, não iria dar em nada”, explicou.

O caso de Isabela é semelhante ao da influenciadora Bielle Elizabeth, que relatou em suas redes sociais que teve cegueira temporária após utilizar o produto. A influenciadora digital contou que a pomada foi aplicada na região da raiz próxima a testa e após algum tempo de uso, ela não conseguia mais abrir os olhos. Assim como a estudante de relações públicas, Bielle afirmou que a queimação começou após pegar uma chuva que fez com que o produto escorresse pelo seu rosto. Ambas as mulheres descreveram o problema como uma sensação de ter areia nos olhos. "Comecei a tentar tirar, mas conforme eu ia tentando, ia piorando, até o momento que parou de ser um incômodo e virou uma dor”, falou Isabela.

“Fiquei sabendo de muitos casos, mas eu só ficava naquela de ‘pô, não vai acontecer comigo a minha pomada não tem dessas’, mas ocorre. Antes de isso acontecer comigo, eu tinha lido que uma menina ficou completamente cega após ir em uma piscina com a pomada, mas continuei usando mesmo assim. A gente só liga quando acontece conosco”, afirmou a estudante.
Isabela contou que apesar do incidente, não sofreu sequelas permanentes, mas que ficou sem enxergar por dois dias. “Eu já tinha uma visão muito ruim, possuo uma doença rara, por isso sou cega funcional do olho direito. E o acidente aconteceu com o olho esquerdo, por isso fiquei sem enxergar nada por uns dois dias, já que não conseguia abrir o olho de jeito nenhum. Mas graças a deus não parece que eu tenha ficado com alguma sequela”.
Em postagens no Twitter, usuários alertam sobre as consequências do uso das pomadas. O perfil @Isahvitoriaa relata em sua rede social o acidente de sua mãe com uma das pomadas irregulares. De acordo com o usuário, sua mãe não conseguiu enxergar após utilizar a pomada "Mr.CCHair",devido a uma forte queimadura nos olhos.

Médicos e cientistas advertem
De acordo com a youtuber do ‘Física e Afins’, Gabriela Bailas, PhD em Física Teórica de Partículas, após o uso da pomada e o contato com a água, as pessoas desenvolvem alergia e até mesmo cegueira temporária. O que químicamente causou essa reação foi a quantidade de antibactericida acima do permitido, que danifica as células que protegem o organismo contra oxidantes. Quanto mais tempo em contato com essa mistura, mais forte será a reação. “Por isso a demora em procurar ajuda agravou muitos casos. Por conta desse tempo de reação lenta que essa mistura apresenta”, afirmou Bailas.
“Pelo antibactericida usado ser polar, ele possui uma afinidade muito grande com a água. Então é por isso que na maioria dos relatos, as pessoas tiveram contato com o banho, piscina ou até mesmo a água do mar. Quando o produto escorre do cabelo e entra em contato com regiões sensíveis como os olhos ou o rosto, ocorre essa reação”, explica a PhD.
“Para mim, acho bastante problemático um produto que não pode entrar em contato com a água, mesmo que tenha avisos. Se a pessoa esquece por um momento e toma banho, você pode ganhar uma cegueira temporária ou algo pior”, complementa Bailas.
Em entrevista para o jornal A Gazeta, o oftalmologista Leonardo Marculino, do Hospital Cema, afirma que os perigos dos cosméticos ocorrem quando eles entram em contato com os olhos. "Alguns tipos de cosméticos, se estiverem próximos dos olhos ou forem voláteis, podem causar irritação. Agora, quando eles entram em contato direto com o olho, eles vão gerar algum tipo de lesão na superfície ocular, que pode até fazer com que a pessoa sinta muita dor, baixa de visão ou até algum tipo de infecção, dependendo do tamanho do machucado que se formar no olho da pessoa".
Segundo orientações do oftalmologista, é recomendado lavar abundantemente os olhos com água para retirar todo o resíduo o mais rápido possível e procurar atendimento médico, pois quanto mais tempo ficar em contato com o olho, maior o dano que ele vai causar.
Alertas e cuidados
A Anvisa informou que ainda está avaliando as ações sanitárias necessárias, e que seguirá acompanhando todos os fatos relatados relacionados às pomadas capilares com a ajuda dos órgãos de vigilância sanitária dos estados e municípios.
Em decorrência de algum tipo de efeito adverso após o uso das pomadas investigadas pela Anvisa, o cidadão comum ou os profissionais de salão de beleza podem relatar o caso por meio de um canal criado pela agência.
Dentre as marcas suspensas apenas a marca “Feira dos Cabelos” emitiu uma nota acerca dos ocorridos:

Para auxiliar, o Conselho Regional de Química do Rio (CRQ-III) divulgou uma cartilha informativa com orientações à população sobre o uso de produtos cosméticos que podem provocar graves problemas de saúde. Nela, o CRQ a necessidade de lavar as mãos após manusear produtos cosméticos, evitando o contato com outras partes do corpo e em caso de contato com os olhos, deve-se lavar imediatamente com água em abundância, além de utilizar o produto somente durante a data de validade e não utilizar produtos que apresentem mudança de cor, textura ou odor. Confira a cartilha abaixo.

É possível também verificar as pomadas proibidas pelo órgão através do site da Anvisa.


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