Politização da camisa do Brasil afeta a relação com o torcedor
- Gabriel Segantini & Júlio César Barcellos
- 12 de dez. de 2022
- 4 min de leitura
Transformação da “canarinho” em símbolo da extrema direita mudou a forma de torcer pela seleção.
A apropriação da camisa da Seleção por grupos ligados à extrema direita tem dividido a opinião dos torcedores brasileiros. Em meio a disputa da Copa do Mundo do Catar, há discussões sobre o apoio ou não à Seleção Brasileira na competição. Ao mesmo tempo, há dúvidas sobre os jogadores que representam o time nacional, já que muitos deles apoiam o atual governo, o que gera sentimentos divididos em quem acompanha a seleção canarinho.
Para a servidora pública Thalyta Mitsue, por exemplo, há uma certa resistência quanto ao uso da camisa: “minha relação com a camisa amarela foi muito afetada por toda essa questão política do Brasil”. Thalyta completou dizendo ainda que prefere usar outras cores e versões da camisa da seleção, evitando o amarelo do uniforme principal.
Essa mudança de comportamento do torcedor em relação à camisa canarinho pode ser observada nos comércios populares espalhados por todo o país. A reportagem do Gazetari foi às ruas do bairro da Tijuca para saber como tem sido as vendas dos vendedores locais em época de Copa do Mundo. Muitos relataram a queda no número de amarelinhas vendidas, com as demais versões do time brasileiro ganhando espaço.
Algo que chamou a atenção da equipe de reportagem durante a busca por declarações dos vendedores foi a relutância em dar entrevistas sobre o tema. Ao serem perguntados sobre o tema pelos repórteres, muitos ambulantes hesitaram ou até mesmo desconversaram.

Mattheus Reis, é jornalista e ex-aluno da Faculdade de Comunicação Social da Uerj. Na monografia, que se tornou o livro “Amarelo desbotado: Crise e sequestro da camisa da seleção brasileira de futebol”, ele explora essa ideia de que houve no país uma apropriação da camisa da seleção por grupos políticos, em especial através do bolsonarismo. Na análise, o autor aponta que esse processo é antigo, vindo desde o impeachment da então presidente Dilma Rousseff, mas que ganhou bastante força com a ascensão do bolsonarismo.
Segundo Mattheus, embora essa relação do torcedor com a amarelinha esteja defasada, ela se manifesta de formas distintas entre os torcedores. Ele segue afirmando ainda que o processo se dá de forma mais acentuada entre as elites intelectuais progressistas. “Eu ainda acho que, pelo menos ali, uns três quartos da população brasileira, seja votando a favor do Bolsonaro ou não, ela não vê o uso da camisa amarela ou de torcer para a seleção brasileira como um problema.”, afirmou.
Isso corrobora com os recentes números divulgados pelo balanço financeiro da Nike. A gigante estadunidense de materiais esportivos, responsável pelos uniformes brasileiros, aponta que a versão amarela da camisa continua soberana, com 65% das comercializações. Mesmo no dia de lançamento da nova vestimenta, as vendas foram encerradas rapidamente - todos os uniformes foram vendidos.
A descontinuidade de Bolsonaro no poder, aliada com as tentativas do presidente eleito, Luiz Inácio Lula da Silva, de ressaltar o sentimento de pertencimento com a camisa são outro fator apontado por Mattheus nesse processo de retorno à normalidade da relação do torcedor com a camisa canarinho. Lula, aliás, tem sido bastante participativo em suas redes sociais durante o Mundial, tendo postado fotos acompanhando os jogos com a camisa amarela da seleção.
Os posicionamentos políticos dos jogadores da seleção também influenciaram na compra da tradicional blusa amarela do Brasil. Neymar Júnior, astro do Paris-Saint-Germain, se posicionou a favor do atual presidente Jair Messias Bolsonaro durante o período eleitoral. O jogador chegou a fazer campanha em suas redes sociais, participando inclusive de uma live com o atual chefe do Executivo. O craque prometeu ainda que dedicaria seu primeiro gol na Copa do Mundo ao então candidato à reeleição.
As manifestações feitas pelo atacante afetaram a escolha dos torcedores na hora de comprar a blusa. “Aqui a gente não vende com nome atrás da camisa não, mas muitas pessoas têm rejeitado a camisa com o número dez nas costas”, disse Vanderson, um dos vendedores ambulantes do bairro da Tijuca. Após sua declaração de apoio a Bolsonaro, muitos torcedores têm riscado o nome de Neymar da blusa do Brasil. Os protestos vão desde provocações sobre as pendências tributárias do camisa dez com a justiça até menções à atriz Bruna Marquezine, ex-namorada do jogador.

Na leitura de quem analisa o tema, o esquecimento de Bolsonaro pelos jogadores após a derrota nas eleições pode fazer com que os torcedores se aproximem novamente da seleção Brasileira. “Alguns estudos, alguns mapeamentos, já mostram que menções a Bolsonaro nas redes sociais após a derrota dele caíram 94%.”, afirma Mattheus. Com o atual presidente fora dos holofotes, fazendo menos parte da vida política do país - “A fila anda, a vida continua” - completou o pesquisador.
Em um tom esperançoso, Mattheus ressaltou o poder da Copa do Mundo de juntar o torcedor brasileiro na torcida de sua seleção. “O fator de nacionalidade fala muito alto”, disse. Na empolgação gerada pela campanha brasileira no Catar, o jornalista concluiu atribuindo todos esses fatores a um retorno gradual do uso da camisa amarelinha, a tradicional canarinho, pelo torcedor brasileiro.


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