top of page

OSGEMEOS: exposição “Nossos segredos” é sucesso no Rio

  • Ana Júlia Brandão & Vitória Luna
  • 18 de jan. de 2023
  • 4 min de leitura

Atualizado: 4 de fev. de 2023

Em sua última semana, a mostra realizada pelo CCBB já ultrapassou 500 mil visitantes e o sucesso levanta questões sobre a marginalização do grafite.


ree

O Centro Cultural do Banco do Brasil (CCBB) reuniu mais de mil peças da dupla de artistas OSGEMEOS na exposição “Nossos Segredos”. Em exibição desde outubro, a mostra apresenta, além de inúmeras obras, os bastidores do trabalho dos irmãos Gustavo e Otávio Pandolfo, mundialmente famosos por seus enormes murais coloridos feitos com grafite. A exibição tem despertado o interesse do público, ultrapassando meio milhão de visitantes, 100 mil deles apenas na primeira semana.


O duo começou a atuar no final dos anos 80, dentro do movimento hip-hop da época que predominava a cultura de rua. Porém, com o tempo e reconhecimento, suas obras ultrapassaram os limites urbanos e, atualmente, estão expostas em alguns dos maiores museus pelo mundo afora. Os irmãos Pandolfo carregam em seus desenhos traços carregados de críticas aos sistemas sociais e políticos observados no dia a dia. Fora isso, os trabalhos, inicialmente feitos com grafite pelas ruas de São Paulo, hoje estão acompanhados por esculturas e pinturas em tela que compõem seu acervo.


Embora não sejam mais suas únicas telas, as ruas ainda são a principal fonte de inspiração dos irmãos. O grafite, por onde começaram a disseminar suas ideias, está presente no cotidiano de todo suburbano, inclusive nas periferias de São Paulo, de onde Gustavo e Otávio vieram, e é uma peça fundamental para a arte. Mas, a marginalização de expressões urbanas ainda é muito presente dentro e fora do país e, embora o tempo passe, continua forte.


A modalidade artística produzida com tinta em spray surgiu nos muros e paredes das ruas do subúrbio nova-iorquino, durante a década de 1970 em meio ao movimento da contracultura e, desde então, os artistas lutam pelo seu reconhecimento como real forma de arte.


Segundo o professor Ricardo Benevides, da Faculdade de Comunicação Social (FCS) da Uerj, a presença do grafite nas ruas é uma maneira de humanização de um ambiente muitas das vezes negligenciado e sem vida.


“A gente tem que pensar que, em primeiro lugar, o grafite é uma intervenção de arte urbana, que está nas cidade muitas vezes produzindo um efeito de encantamento e diversão em um espaço que, em outros momentos, não teria nenhum papel significativo na vida das pessoas, como no caso de muros e vagões abandonados. A presença dessa arte no cotidiano faz com que as pessoas que estão em contato com ela redesenhem o seu jeito de estar e viver naquele local. Vai para além de um embelezamento, é uma ressignificação.” disse Benevides.


Embora seu acervo esteja presente em museus, em fachadas de castelos e exibido em mais de 60 países, no Brasil, os irmãos continuam fazendo parte de uma cultura negligenciada. No ano de 2013, a prefeitura de São Paulo apagou, mais de uma vez, alguns de seus murais localizados no Viaduto do Glicério, região central da cidade. Todas as vezes que a prefeitura passava tinta branca por cima de uma obra, Gustavo e Otávio refaziam o mural, trazendo novas críticas à tentativa de silenciamento de sua arte.


Ou seja, mesmo com a fama internacional o trabalho da dupla ainda não é totalmente reconhecido como expressão artística. Esse apagamento literal dos murais representa também o apagamento da liberdade criativa dos artistas e, principalmente, do que eles representam.


ree

Para a estudante de História da Arte, Thais Seixas, a exposição das obras, seja em museus, em painéis ao ar livre ou em espaços públicos, infelizmente, não retira o estigma criado após décadas de preconceito.


“Quando os artistas decidem fazer parte de uma exposição museal, o que eles fazem é compor uma experiência. As instalações denunciam o nível de aptidão artística dos mesmos, mas não fazem com que o grafite seja menos criminalizado. O público pode sim, através dessa visita, olhar de uma forma menos discriminatória, mas o sucesso dos gêmeos e a legitimação institucional não se traduzem em uma total abertura de portas para esses artistas.”


Esse espaço de exibição em museus, tão importante, aberto à grafitagem, não deixa de ser um grande passo de valorização, mas também reafirma a concepção de que apenas o que é exposto de maneira convencional será validado como arte. É o que reforça Ricardo Benevides sobre a exposição no CCBB: “Por um lado, a exposição no CCBB torna o trabalho deles acessível para pessoas que não teriam a chance de ver, reunidos, esses desenhos feitos em tantas partes do mundo e em tantos suportes diferentes” (...) “E parece que quando um aparelho cultural como o CCBB recebe artistas assim, eles ganham uma outra legitimidade aos olhos de pessoas que não sabem o que é o grafite. Então, nesse sentido, tudo bem, mas é um sentido ligado à ignorância das pessoas sobre o valor daquela arte, e aí precisa estar no CCBB, ou em uma galeria.”


Para Seixas, o grafite é uma forma de arte que se diferencia das tradicionais e que desempenha um papel social importante para aqueles que estão cercados por esses elementos. “Superficialmente, o grafite desempenha um papel sócio-cultural importante, pois desconstrói a ideia de cubo branco enquanto democratiza a arte. Os grafiteiros não se limitam às tendências artísticas acadêmicas, e a não preocupação com o sistema de arte faz com que suas ilustrações se tornem mais criativas e atinjam aqueles que não se sentem confortáveis ou estimulados pelas instituições, como museus e galerias.” finaliza.



A exposição Nossos Segredos permanece em cartaz no Rio de Janeiro até o dia 23 de janeiro, no Centro Cultural do Banco do Brasil. As visitas podem ser feitas às segundas, quartas, quintas, sextas e sábados, das 9h às 21h e aos domingos, das 9h às 20h. A entrada é gratuita e os ingressos podem ser retirados na bilheteria do local ou online, através do site: bb.com.br/cultura.


Comentários


bottom of page