Netflix cancela séries com temática LGBTQIAP+
- Ana Cândida
- 6 de fev. de 2023
- 4 min de leitura
Atualizado: 7 de fev. de 2023
Das 20 séries canceladas no ano passado, oito apresentam diversidade.

A Netflix cancelou oito séries com personagens ou narrativas LGBTQIAP+ em 2022, quase metade dos cancelamentos ocorridos no ano passado, e desagradou assinantes. Os usuários criticam a falta de apoio à comunidade por parte da empresa e o descompromisso com seus próprios ideais, como a inclusão. Já que parte do crescimento da plataforma aconteceu por conta de séries representativas, como ‘Sense 8’ e ‘Orange is The New Black’. Em entrevista recente ao Bloomberg, o atual CEO da Netflix, Ted Sarandos, justificou os cancelamentos afirmando que "Muitas dessas séries (canceladas) foram bem-intencionadas, mas falam para um público muito pequeno com um orçamento muito grande", disse Sarandos.
Simone Evangelista, professora de Teorias da Comunicação da Uerj, explicou que a partir do momento em que se considerou a diversidade como uma estratégia de visibilidade, empresas de entretenimento como a Netflix buscaram se posicionar enquanto defensoras das "minorias".”O problema é que, uma vez que não há políticas culturais estabelecidas, as produções vão obedecer à lógica do lucro, hoje atrelada à capacidade que uma série tem de virar assunto nas redes sociais. Assim, mais do que louvar iniciativas isoladas, seria necessário pensar em formas de assegurar que essas empresas construam narrativas menos estereotipadas e mais inclusivas.”, explicou Simone.
A recente polêmica por causa de cancelamentos ocorreu com a série ‘Warrior Nun’, que entrou no catálogo da Netflix em 2020. A série conta a história de freiras guerreiras que lutam contra monstros e aborda o relacionamento das protagonistas, Ava e Beatrice. Desde a sua primeira temporada a série foi muito bem recebida pelo público e crítica, que elogiaram a parte técnica e o protagonismo de um casal homoafetivo. A segunda temporada estreou dois anos depois, em 2022. As duas partes receberam ótimas avaliações no Rotten Tomatoes, site de crítica especializada, a produção obteve 97% de aprovação por parte do público e 84% por parte da crítica. Além disso, ‘Warrior Nun’ passou três semanas no Top 10 da Netflix, no sétimo lugar do ranking, com 30 milhões de horas assistidas.
Após a notícia do cancelamento da série, os fãs e o elenco da produção iniciaram uma campanha nas redes sociais para que a série fosse salva por alguma outra plataforma de streaming, como a Apple TV+. A hashtag #savewarriornun, que já conta com milhões de tweets, foi criada para impulsionar a campanha dentro e fora do Twitter. Em mais um ato de protesto, os fãs colocaram um outdoor com a hashtag do movimento em frente ao prédio onde fica a sede da Netflix, na Califórnia. No Instagram, os fãs postam fotos de vários lugares ao redor do mundo segurando cartazes com a hashtag. O intuito é chamar a atenção das plataformas para o movimento.
A estudante de Jornalismo da Uerj, Alice Lichotti pontuou que séries com casais sáficos (mulheres que tenham atração, exclusiva ou não, por outras mulheres) têm uma maior recorrência de cancelamentos, e as poucas que existem são fetichizadas. "É notável a falta de séries que apresentam relacionamentos entre mulheres, além de serem em menor quantidade elas ainda passam por uma fetichização", disse a estudante. Ela comenta a importância da representatividade com a existência de séries sobre casais aquilianos (homens que tenham atração, exclusiva ou não, por outros homens), mas sente falta de séries sáficas.
Há uma frequência em séries LGBTQIAP+ bem-sucedidas não serem renovadas. Um exemplo é ‘O Filho Bastardo do Diabo’ (2022), que obteve uma aprovação de 92% pelo público e 93% pela crítica, de acordo com o Rotten Tomatoes. A série queer conseguiu permanecer semanas no Top 10 da Netflix atingindo 30 milhões de horas assistidas. Ainda assim, a produção britânica foi cancelada pouco mais de um mês após sua estreia.

A estudante Carine Quivia falou sobre essa problemática. “Ao longo dos anos tivemos representações que depois foram canceladas na primeira temporada, sem chance de desenvolvimento dos personagens ou da narrativa. Ver que essas narrativas são interrompidas mesmo com tanta recepção positiva é mostrar que as nossas histórias (LGBTQIAP+) não merecem ser contadas.”
O estudante de Jornalismo da Uerj, Lorran Rosa explicou a importância de séries representativas na vida das pessoas e que essas narrativas constroem novas perspectivas de vida para a comunidade. “Por anos o comum foi só mostrar como é difícil ser uma pessoa LGBTQIAP+ e sofrer preconceito por isso, como um homem bissexual cresci vendo muito isso. Mostrar esse lado não deixa de ser importante, mas também existem outros lados da história, mostrar que vivemos só de luta, de certa forma, ajuda a propagar estereótipos. Essas produções auxiliam pessoas em processo de descoberta da sua sexualidade e identidade.”, afirmou Rosa.
Esses cancelamentos não se tratam de acontecimentos recentes, muito pelo contrário, são medidas que aumentam a cada ano que passa. Um exemplo é a série ‘I Am Not Okay With This’ (2020), que abordava uma jovem lésbica que descobre ter superpoderes. A produção permaneceu no Top 10 por duas semanas nos Estados Unidos e em outros países ao redor do mundo. Mesmo assim, a Netflix cancelou, alegando que a pandemia tenha sido o principal motivo, mesmo outras séries sendo renovadas durante esse período. Ao todo foram, ao menos, mais de 16 séries LGBTQIAP+ canceladas nos últimos quatro anos, dados como esse mostram que essa prática é algo recorrente na plataforma.
Durante a produção desta matéria, a Netflix Brasil e outras, foram contactadas para ouvirmos o lado da plataforma sobre a sequência de cancelamentos de séries com representatividade. Porém, não obtivemos resposta até a publicação da matéria.








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