Mata Atlântica como referência de restauração ambiental
- Gabriella Sackey & Lorrane Mendonça
- 16 de jan. de 2023
- 5 min de leitura
Reconhecimento mostra como o trabalho de iniciativas pode contribuir na restauração e trazer novos benefícios.

A Mata Atlântica, bioma que já preencheu grande parte da costa brasileira e ainda se estende por Paraguai e Argentina, é uma das dez referências mundiais em restauração segundo a ONU. O trabalho brasileiro é do Pacto Trinacional da Mata Atlântica, que está ajudando a preservar os habitats de várias espécies da fauna e flora da região. Muito explorada, hoje restam apenas 24% da floresta que existia originalmente, sendo que apenas 12,4% são florestas maduras e bem preservadas. Através do trabalho de reflorestamento, está sendo cada vez mais possível desenvolver projetos e iniciativas para monitorar, coibir o desmatamento, e fortalecer a legislação que tem como dever proteger a Mata Atlântica.
De acordo com um estudo produzido pela Sociedade Brasileira de Restauração Ecológica (SOBRE), o Brasil pode gerar de 1 milhão a 2,5 milhões de postos de trabalho diretos se alcançar a meta de restaurar 12 milhões de hectares de vegetação nativa até 2030. Esse resultado é apenas um dos benefícios que a restauração da Mata Atlântica pode trazer para a sociedade, segundo a professora de engenharia ambiental da Uerj Alena Netto, a restauração do bioma também pode trazer de volta os serviços ecossistêmicos oferecidos pela bacia, a regulação do clima, o crescimento da biodiversidade, a quantidade e qualidade da água e a recuperação da qualidade do solo que pode ser usado para agrofloresta ou agropecuária.
Segundo Rafael Bitante, gerente de restauração florestal da SOS Mata Atlântica, uma das iniciativas notadas durante a Conferência das Nações Unidas sobre Biodiversidade (COP15), aponta que o título da ONU é um reconhecimento que vai além da restauração da Mata Atlântica, mas evidencia também a eficácia das redes que desenvolvem estratégias de conservação alinhadas com o Plano de Ação da Década da Restauração de Ecossistemas da ONU (2021-2030).“Restauração é um sistema inclusivo que funciona de maneira diversa e de longo prazo, e este reconhecimento ajuda a trazer os holofotes para esse processo, que envolve uma longa cadeia de atores, de coletores de sementes a pessoas extremamente qualificadas para o monitoramento", explica Rafael.
O levantamento feito pela SOBREtambém mostrou que, atualmente, 61% dos trabalhos de restauração estão concentrados na região Sudeste, sendo um terço no estado de São Paulo. Outro dado mostra que a maioria dos empregos ligados ao setor (85%) envolve a Mata Atlântica – bioma pioneiro em atividades de recuperação no país. “Restauração Florestal é o esforço de resgatar a floresta que originalmente existia em uma área e trazer de volta suas funções originais. Essa recomposição deve ser feita principalmente nas áreas de nascentes, mananciais e nas margens dos rios (mata ciliar) para diminuir riscos de desabastecimento de água nas cidades brasileiras. É o melhor instrumento para enfrentamento das mudanças climáticas, o processo de restauração acaba sequestrando e armazenando um dos principais gases do efeito estufa, o gás carbônico”, pontua Bitante.
O reconhecimento da ONU não ficará apenas no papel e irá beneficiar as iniciativas com apoio técnico e financiamento de projetos através do PNUMA (Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente) e da FAO (Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura). “Agora é colocar em prática os compromissos assumidos. Uma série de esforços estão sendo tomados, desde determinações de padrões e boas práticas que devem ser adotadas no processo até o monitoramento de todo processo. O progresso de todos os 10 Flagships Mundiais de Restauração será monitorado de forma transparente por meio da Estrutura para Monitoramento da Restauração de Ecossistemas, a plataforma da Década da ONU para acompanhar os esforços globais de restauração”, afirma Rafael.
Em entrevista ao Gazetari, a Associação Ambientalista Copaíba, iniciativa que integra o Pacto Trinacional da Mata Atlântica reconhecido pela ONU, explica que o processo de restauração não é simples, pode levar meses ou até anos para se completar até a fase de plantio, além de sofrer agentes externos como as geadas e chuvas de pedra. Segundo a organização, a conscientização da população quanto à importância da conservação e restauração das matas nativas é um desafio diário, que exige atividades de mobilização de várias das áreas da Copaíba.
“É importante a educação ambiental, tendo como principal objetivo reconectar as pessoas com a natureza, conscientizando sobre a importância da conservação e restauração dos ecossistemas, em especial da Mata Atlântica. Políticas públicas, na realização de articulações e parcerias com diversos atores públicos e privados, participação em fóruns, comitês e conselhos municipais. E a comunicação, na promoção de campanhas, utilização das mídias, arrecadação de doações através de produtos e ações pontuais - como as árvores de presente, relacionamento com empresas parceiras e atores da sociedade”, afirma a associação ambientalista.
A Copaíba atua diretamente no processo de restauração florestal nas bacias do rio do Peixe e Camanducaia, que engloba 19 municípios dos estados de São Paulo e Minas Gerais. Nessas áreas, os proprietários de terras interessados em restaurar, entram em contato com a Associação e, atingindo os requisitos mínimos, recebem as mudas nativas, os insumos necessários, projeto técnico e toda a assistência feita por profissionais experientes. Além disso, a Copaíba conta com o Viveiro Florestal, que atua desde a coleta das sementes, até as mudas rustificadas e prontas para o campo. Essas mudas são doadas nos projetos de restauração e também são vendidas ao público em geral interessado. Existem mais de 130 espécies de mudas nativas da Mata Atlântica sendo cultivadas no Viveiro Florestal Copaíba.
“A educação ambiental e as políticas públicas, completam os 4 pilares de atuação, sendo a primeira desenvolvida tanto para estudantes, pesquisadores, entusiastas e profissionais da área, que tenham interesse sobre o tema, e possam conhecer o espaço da sede e recebam a visita guiada e informativa. Já as políticas públicas são trabalhadas com as prefeituras das cidades de atuação, que tenham interesse ao tema e possam desenvolver ações, projetos e leis que contemplem seus municípios nas questões ambientais e climáticas”, explica a organização.
De acordo com um estudo publicado na revista Nature, o bioma faz parte de um grupo de ecossistemas em que a restauração de 15% da sua área evitaria 60% das extinções de espécies previstas, ao mesmo tempo em que sequestraria o equivalente a 30% do CO2 lançado na atmosfera desde o início da Revolução Industrial. O bioma abriga mais de 70% da população brasileira, responde por 80% da economia, engloba grandes centros urbanos e industriais, além de ser responsável por grande parte da produção de alimentos do país. Todos dependem dos seus serviços ecossistêmicos, que se encontram sob grave ameaça.
Alena Netto conclui que o primeiro passo de qualquer projeto de recuperação de área degradada é entender a fonte de degradação para cessá-la. Uma vez que a degradação para de acontecer tem que ser feita uma avaliação dos danos ambientais da área para definir pela técnica adequada de recuperação. Essas podem envolver transposição de solo, atração polinizadores e dispersores de sementes, plantio de espécies vegetais (por sementes ou mudas) a fim de promover a sucessão ecológica, contenção de encostas, entre outras. Uma vez implementada a técnica é preciso haver acompanhamento da área por monitoramento ambiental constante, para que o efeito desejado realmente aconteça.










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