“Magreza não é sinônimo de saúde”
- Lorrane Mendonça

- 4 de fev. de 2023
- 5 min de leitura
Atualizado: 7 de fev. de 2023
Apesar de fumar, Bruna Griphão tem sido associada a um estilo de vida saudável por ser magra, mas especialistas esclarecem as ideias do que é ser magro e saudável.

Exemplo de vida saudável nas redes sociais por rotina de exercícios, alimentação balanceada e um corpo torneado, a atriz Bruna Griphao surpreendeu o público com consumo excessivo de cigarro no Big Brother Brasil 23. A participante do programa está entre as 6,7% de mulheres fumantes com 18 anos ou mais no Brasil, homens representam 11,8%, de um percentual total de 9,1% de usuários de cigarro que são maiores de idade no país, segundo dados da Vigilância de Fatores de Risco e Proteção para Doenças Crônicas por Inquérito Telefônico (Vigitel) 2021.
Dados do Instituto do Câncer revelam que 443 pessoas morrem por dia no Brasil em decorrência do tabagismo. Uma pesquisa encomendada pela farmacêutica AstraZeneca revelou que a média de brasileiros que ultrapassam 11 cigarros por dia (mais que metade de um maço) é de 39% — enquanto a média da América Latina é de 27% dos fumantes acima dessa cota.
"O cigarro é muito mais difícil de tratar do que outras drogas, como a cocaína e o craque, porque é aceito socialmente", explica Cristiane Tourinho, médica especialista em tabagismo, da Policlínica Piquet Carneiro. A médica complementa dizendo que não existe um nível de redução de danos no consumo do cigarro (comburente), que tem mais de 7 mil componentes, dos quais muitos são cancerígenos e outros tantos tóxicos, porque essas substâncias se transformam em outras na queima do cigarro, o que é extremamente prejudicial.
Além de auxiliar no desenvolvimento de diferentes tipos de câncer, como nos órgãos do trato respiratório, bucal, digestório, excretor e, até reprodutor, o tabagismo está relacionado à perda de peso de maneira não saudável aos fumantes. De acordo com o Ministério da Saúde, a nicotina pode aumentar a termogênese e a taxa de metabolismo basal, induzindo o aumento de leptina circulante no sangue, hormônio da saciedade, produzido nas células de gordura, que libera mensagens ao cérebro que controlam o desejo por alimento. O apetite sofre alterações não só por questões hormonais, mas também, porque a percepção dos sabores – que ocorre na língua – é prejudicada pelo hábito de fumar. Por esse motivo, os fumantes perdem a vontade de comer, provocando perda de peso.
Segundo a nutricionista Juliana Marques, magreza não é sinônimo de saúde. O que vai dizer se um paciente é saudável ou não é o seu conjunto de hábitos, sua alimentação e a sua relação com o alimento, não só a sua composição corporal. “As pessoas acham que emagrecer é sempre benéfico, mas podemos perder peso em situações de ausência de saúde. Além de uma pessoa com uma tendência maior ao emagrecimento poder ter péssimos hábitos alimentares, com uma dieta extremamente pobre em nutrientes”, explica Juliana.
Embora seja fumante, Bruna apresentou bastante resistência em umas das primeiras provas de liderança do programa, o que gerou na internet vários comentários engraçados sobre a possibilidade de fumar e ainda assim ser saudável. As habilidades de resistência da participante podem estar vinculadas ao costume de praticar exercícios físicos. Alguns especialistas explicam que a baixa taxa de gordura corporal da ‘sister’ pode assegurar que ela não desenvolva gordura visceral, mas não outras doenças relacionadas ao uso da nicotina.
O consumo excessivo de nicotina também está relacionado a questões como depressão e ansiedade, já que se tornam uma alternativa dos usuários para liberar o estresse, gerando neles apego emocional ao cigarro. Isso acontece por conta da velocidade com que a substância chega ao cérebro, em dez segundos, e a alta quantidade de dopamina que libera, hormônio da felicidade, do prazer e da satisfação. “Muitas vezes quando a gente faz sessões em grupo o paciente chora, pede para ficar apenas com um cigarro ou dois. Mas não existe consumo seguro, nós precisamos que ele fique sem nenhum", conta Cristiane.
Corpos magros e cuidados com a saúde
A busca por emagrecer ou se manter magro vão além de padrões estéticos, pré-disponibilidades genéticas a doenças ou apenas manutenção da saúde são motivadores na busca por exercícios físicos, uma alimentação saudável e acompanhamento médico especializado. Como foi o caso de Bruna Almeida, graduanda de história na Puc-Rio, que buscava desenvolver uma nova rotina com hábitos saudáveis.
Mas ao chegar em sua primeira consulta nutricional, a estudante descobriu que uma simples procura por ajuda poderia se mostrar um perigo à sua saúde, ao ser receitada pela médica que parasse com o uso de contraceptivos e fizesse reposição hormonal com determinado medicamento. E sem que a médica lhe alertasse para os perigos do tratamento.
“Tive a certeza de que existem profissionais irresponsáveis com a saúde de seus pacientes, pois o tratamento hormonal indicado pela nutricionista como única alternativa possível para um desenvolvimento muscular feminino, é popularmente conhecido como “bomba”, responsável por diversos efeitos colaterais no organismo feminino, como problemas que vão desde queda capilar até alteração na voz”, desabafa a Bruna.
A jovem conta que nos cinco minutos da consulta, não foi questionada sobre seus hábitos alimentares ou de práticas físicas, apenas qual era o objetivo dela e se fazia uso de algum medicamento. Ao responder que tomava pílulas contraceptivas a nutricionista teve uma reação desagradável, demonstrando completa repulsa e exigindo a suspensão e substituição dos medicamentos - antes mesmo que Bruna contasse que utilizava justamente para controle hormonal e que já utilizava a creatina como suplemento. A médica receitou que Bruna fizesse uma bateria de 20 exames, dos quais ela diz que mesmo com os descontos do plano de saúde sairiam a R$ 470,00.

Em uma prática não invasiva, diferente do que Bruna sofreu, além de perguntas referente aos seus hábitos alimentares, práticas físicas e uso de medicamentos, poderia ter sido feito um cálculo do IMC da jovem, para que fosse definida a melhor abordagem em busca do que ela queria, seguindo bases seguras para saúde física dela.
O índice de massa corporal (IMC) é comumente usado para classificar sobrepeso e obesidade em adultos, definido a partir do peso de uma pessoa em quilogramas dividido pelo quadrado de sua altura em metros (kg/m2). No entanto, deve ser considerado um guia aproximado, pois pode não corresponder ao mesmo grau de gordura em diferentes indivíduos, de acordo com a OMS. Ainda que seja voltado para o cálculo de sobrepeso e obesidade, o nutrólogo José Américo explica a importância do cálculo do índice para corpos magros.
“Na avaliação do estado nutricional utilizamos o índice de massa corporal (IMC), que define como normal entre 18,6 e 24,9. Indivíduos com IMC menor que 18,6 também são considerados com risco elevado de complicações, como infecções, fraturas e até mesmo risco cardiovascular. Alguns estudos comprovam que o risco cardiovascular é maior em pessoas magras que não praticam atividade física do que em indivíduos com sobrepeso e obesidade grau I que praticam atividade rotineira”, explica o nutrólogo.
“O que devemos avaliar realmente é a saúde como um todo. Diferente do que pensam, saúde não é ausência de doença, é sobre saúde mental, física e comportamental. Quando pensamos no físico, é importante que o paciente se olhe no espelho e fique satisfeito com o que enxerga. Com corpos tão distintos é praticamente impossível criar um padrão do que é estar ‘em forma’, explica Juliana Marques.



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