Futebol e política: uma relação atemporal
- Gabriel Segantini

- 21 de nov. de 2022
- 5 min de leitura
Atualizado: 22 de nov. de 2022
O esporte do povo constrói um vínculo político inato que com o decorrer do tempo ganha mais notoriedade e desdobramento

O futebol é praticado desde o século XVIII, onde, na Inglaterra, tomou sua forma mais parecida com o esporte praticado na modernidade. Atualmente, o desporto é considerado o mais popular do mundo e uma paixão nacional. Junto ao enorme crescimento do futebol, o fator político de dentro e fora das quatro linhas aflorou, criando, assim, uma relação intrínseca. E esse vínculo, seja no Brasil ou no exterior, é usado tanto de forma negativa quanto de forma positiva, e se mantém há anos em vigência.
Entendendo a relação
Para Álvaro do Cabo, professor de história, direito e comunicação social e pesquisador com especializações em pesquisas acadêmicas sobre esporte, a relação entre futebol e política vem desde as ligas amadoras. O exercício político não apareceu somente com a profissionalização, no amadorismo é perceptível que a política tem grande influência. Isso é explícito nos escândalos de manipulação de resultados em casas de apostas esportivas em divisões inferiores que têm pouca visibilidade, mas movimentam uma enorme quantidade de dinheiro.
Como no caso da partida entre Batatais contra XV de Jaú, pela quarta divisão do campeonato paulista, no qual tiveram 11 escanteios no primeiro tempo. Os jogadores da equipe do Batatais insistiam em jogar a bola para linha de fundo mesmo não sendo a melhor opção a ser tomada e estavam contrariando o andamento lógico do jogo. No fim, descobriu-se que os jogadores haviam sido convidados para participar de um esquema de combinação de resultados para beneficiar apostadores. Ou seja, aproveitando-se da pouca visibilidade e da vulnerabilidade dos jogadores, a política se “infiltrou” no amadorismo. No profissional, esse instrumento político é acentuado e potencializado através da importância simbólica e da midiatização que faz com que a sociedade tenha mais conhecimento sobre os ocorridos.
Ainda segundo o professor, a visibilidade dos dias atuais traz um “holofote” maior para o envolvimento da política com o futebol, mas que essa relação não é de hoje e já acontecia anteriormente. Por exemplo, as realizações das primeiras Copas do Mundo possuem grande participação do governo e de autoridades, no que tange a participação política. Como na Copa de 1950, realizada no Brasil, com a construção do estádio Maracanã mais próximo ao centro para que fosse de fácil acesso a todos, e que também tinha a intenção de demonstrar a capacidade empreendedora do povo brasileiro. A maior diferença entre o contemporâneo e o passado é que, hoje em dia, com a globalização e com a potencialização do processo de midiatização, essas relações são mais expostas. E além disso, as confederações e organizações mundiais, como a FIFA, têm a capacidade de impulsionar mais dinheiro devido a existência de mais patrocinadores e recursos econômicos advindos da ‘politicagem’.
Segundo Pedro Henrique, estudante de jornalismo da Universidade Federal do Rio de Janeiro e fã de futebol, o esporte já nasceu carregado de política e ele também afirma haver uma dificuldade de separar o aspecto político da essência do futebol e da sociedade. A política deve se preocupar com o futebol por ele ser parte da sociedade, mas o poder e a influência política nessa relação tem sido ultrapassada em determinados casos. Como é o exemplo da polêmica renovação do astro Kylian Mbappé, que recebeu uma ligação do presidente da França, Emmanuel Macron, falando que o camisa sete do Paris Saint-Germain era importante para o país, o que acabou sendo determinante para a permanência do craque no clube. Mas, há razões políticas por trás da ligação da autoridade mais importante da França a Mbappé. Motivos esses que envolvem o Catar, maior investidor do PSG e responsável por aplicar dinheiro na França. Com a saída do Francês, boa parte desse dinheiro iria embora com ele, o que não é interessante para Macron, pois o país deixaria de receber uma quantia significativa de um aliado que é considerado um importante investidor.
Futebol como arma política
Ao longo da história, o futebol foi usado, positiva ou negativamente, pela política e pelos políticos. De acordo com Álvaro, a partir do momento que o futebol se torna um elemento condicionante para a formação de uma identidade nacional e cultural, ele está sujeito a ser aproveitado como uma arma política, seja a fim de ideais progressistas ou por ditaduras civis-militares.
Não há como não citar dois exemplos que são notórios e representam muito bem o uso do futebol como potencializador de uma utilização política. Na Copa do Mundo de 1966, a seleção brasileira protagonizou uma campanha frustrante após ser eliminada na fase inicial do torneio. Junto a isso, o Brasil estava vivendo momentos de instabilidade política, com o início da Ditadura Civil-Militar. A ação dos militares teve influência direta e alterou as configurações dentro do cenário esportivo. Militares passaram a ter cargos importantes na CBD, Confederação Brasileira de Desportos (antecessora da CBF), e a situação foi cada vez mais intensificada durante o governo de Emílio Garrastazu Médici. A principal mudança foi o afastamento de João Saldanha, então técnico da Seleção Canarinho, que ocorreu antes do Mundial de 1970. Houve alguns desentendimentos políticos e esportivos entre Saldanha e Médici, um exemplo foi o presidente ser a favor da convocação de Dadá Maravilha, enquanto o comandante da seleção era contra. No fim, João Saldanha foi desligado do cargo para Zagallo assumir, que semanas depois convocou Dadá Maravilha.
O Brasil tornou-se tricampeão mundial em 70 e a campanha da seleção foi um marco político, social e desportivo para o governo de Médici. E além disso, foi a primeira Copa do Mundo transmitida com cores e ao vivo pela Televisão no Brasil, demonstrando uma inovação tecnológica que serviu também como alavanque e propaganda política para o governo. A conquista do troféu aproximou o presidente ao povo e o governo aproveitou para utilizar slogans, patriotismo e nacionalismo, ofuscando, assim, a repressão e violência que o país estava vivendo naquele momento com a Ditadura.
Pedro, contrapondo a situação vivida pelo Brasil e a seleção nos anos 70, relembrou o que, para ele, é o movimento democrático esportivo mais importante da história do país: A democracia Corintiana. A ação tinha como seus principais líderes, jogadores como Sócrates e Casagrande e consistia em tomar todas as mais importantes decisões em conjunto. Uma votação era feita entre presidente, diretores, comissão técnica e jogadores sobre assuntos como contratações, demissões e horários para treinamentos. Essa iniciativa foi benéfica ao Corinthians, pois o time conseguiu conquistar dois campeonatos paulistas e diminuir as dívidas que o clube tinha.
As ações não se limitaram somente dentro das quatro linhas. Em 1982, o Brasil teve a primeira eleição direta desde 1960, para eleger os governadores dos estados. Com isso, os jogadores corintianos, vestiram camisas com frases apoiando o movimento “Diretas Já” e incentivando a população a votar. Logo depois, o ato mais simbólico do movimento foi a entrada em campo dos jogadores, antes da final do Paulistão de 1983, com uma faixa com os dizeres “ganhar ou perder, mas sempre com democracia”.
No entanto, segundo Álvaro, independente das determinadas utilizações do futebol em certas conjunturas, o esporte é um elemento de identificação. Então, existem situações e acontecimentos em que o esporte é utilizado para favorecer a imagem de um determinado governo e também pode ser utilizado para propagar ideias de determinados políticos ou partidos. Porém, também é fundamental não difundir uma visão radical, que muitos intelectuais propagavam entre os anos 80 e 90, de que o futebol seria apenas uma ferramenta de alienação da massa. O desporto também é um elemento de identificação cultural que potencializa lazer, sociabilidade e por isso, acaba sendo utilizado como arma política.


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