Especialista alerta dificuldade para reverter o quadro de desnutrição Yanomami
- Beatriz Pereira & Julia Santos
- 6 de fev. de 2023
- 4 min de leitura
Atualizado: 9 de fev. de 2023
Crise humanitária na maior reserva indígena do país sofre consequências do garimpo ilegal. Patrícia Serralva, nutricionista, explica que não basta apenas ‘dar comida’ aos afetados.
Alerta: esta matéria contém imagens que podem ser consideradas perturbadoras por algumas pessoas.

Indígenas da etnia Yanomami, habitantes da maior reserva indígena do Brasil, localizada no norte da Floresta Amazônica, vivenciam crise sanitária desencadeada por graves quadros de desnutrição, apresentando deficiências de vitaminas e nutrientes essenciais para o organismo. O fato é consequência do garimpo ilegal nas áreas de proteção ambiental, que afetou a pesca e o plantio que garantiam a alimentação do grupo. Especialistas afirmam que somente alimentar os indígenas afetados não resolve a situação de risco, e que ainda será necessário acompanhar os doentes por um longo período de tempo.
A nutricionista Patrícia Serralva reforça que a alimentação da população em recuperação precisa ter um planejamento dietético. “O passo fundamental para reverter o quadro de desnutrição é a implantação de estratégias para que o indivíduo consiga suprir as necessidades fisiológicas do organismo em termos de calorias e nutrientes. As refeições devem ser planejadas e calculadas em macronutrientes (carboidratos, proteínas e lipídeos) e micronutrientes (sais minerais e vitaminas) de acordo com o nível de desnutrição, sexo, idade e outras patologias decorrentes da desnutrição”, explica a profissional.
O vice-presidente da Sociedade Brasileira de Medicina de Família e Comunidade, Marco Túlio, descreveu o cenário como resultado de um longo período de descaso sanitário com a etnia Yanomami. Túlio relata o perigo da desnutrição para além da perda de peso. “A desnutrição grave não é só a perda de peso acentuada, mas também representa a falta de vitaminas e nutrientes importantes, que, a depender da carência de cada organismo, pode causar problemas de pele, de visão e até neurológicos”, explica.
Síndrome de Realimentação

Uma das maiores preocupações das equipes envolvidas na emergência de saúde pública é restabelecer uma alimentação equilibrada sem desencadear uma condição conhecida por Síndrome da Realimentação (SR). Nesse caso, a pessoa desacostumada a receber uma quantidade normal de alimentos, pode ter problemas de saúde causados por ingerir muita comida.
Isso acontece devido ao funcionamento do organismo de uma pessoa desnutrida, que passa a trabalhar com uma carga metabólica mais baixa, e um conjunto de reações químicas e metabólicas que podem ocorrer nos primeiros cinco a sete dias de reintrodução de alimentos, principalmente se for feita de forma rápida ou exagerada.
Patrícia explica que a melhor maneira de realizar a realimentação é ofertar um número elevado de pequenas, mas nutritivas, refeições por dia. “Primeiramente são ofertadas pequenas quantidades de alimento numa maior frequência (6 a 12 vezes por dia)”, ressalta a especialista.
Na tabela a seguir, estão explicitados os principais sintomas da Síndrome de Realimentação, associados ao mecanismo fisiológico envolvido.

Descaso do governo anterior e ajuda do atual governo
Durante o governo de Jair Bolsonaro (PL), as Forças Armadas deixaram de atuar enfaticamente no combate ao garimpo ilegal na área, o que fortaleceu a expansão da atividade criminosa nos últimos 4 anos. O ápice da atuação ocorreu em 2022, com mais de 20 mil invasores no território. Com a contaminação do solo e das águas, a prática impacta na alimentação dos indígenas, que se sustentam através da coleta de alimentos do solo, além de pesca e caça.

No início de 2023, o governo federal enviou técnicos do Ministério da Saúde para a Terra indígena, em Roraima, acarretando em diversas denúncias de violação de direitos humanos, sobretudo com a ação do garimpo ilegal na região. Em 20 de Janeiro, foi declarada pelo ministério, emergência de saúde no território Yanomami. Dez dias depois, o presidente Lula (PT), anunciou ter assinado um decreto para dar poder às forças armadas e aos ministérios da Defesa, Saúde, do Desenvolvimento Social, da Família e dos Povos Indígenas para barrar a situação de garimpeiros ilegais em todo norte do país.
O governo federal declarou emergência de saúde pública para que o processo de assistência aos indígenas fosse agilizado. O presidente Lula visitou Roraima no dia 21 e classificou a situação como desumana. “O que vi, me abalou”, disse Lula. Estima-se que existem entre 26 e 35 mil habitantes Yanomamis, em pelo menos 255 aldeias na região Amazônica. A população, que a partir do início do século XX começou a estabelecer contato com organizações e funcionários do governo, foi ignorada pelo Serviço de Proteção ao Índio.
A malária também é um problema
Além do quadro de desnutrição crônica, os habitantes da reserva também sofrem com a malária, doença infecciosa transmitida pelo mosquito contaminado por um protozoário. Caso não seja tratada corretamente, a doença pode causar vômitos, febre alta e dificuldade de manter ou ganhar peso. Verminoses, fungos e doenças também deixam os médicos responsáveis em alerta. A contaminação da água pode causar condições como diarréia, amebíase, cólera, leptospirose, febre tifoide e hepatite A.
Patricia Serralva aponta que a água com nível elevado de metais pesados decorrentes do garimpo trazem consequências graves para a população, tanto com ingestão direta quanto por contaminação de solo agrícola. “Quando entram no organismo humano, os metais atingem os órgãos provocando disfunção nos rins, fígado e cérebro, podendo causar infertilidade, atravessar a placenta e causar anomalias congênitas”, explica a nutricionista.

A nutricionista também destaca que esse perigo não se restringe aos Yanomamis que vivem atualmente na aldeia. “Os metais pesados têm também efeitos cumulativos no organismo, os quais se perpetuam por gerações. As intoxicações crônicas podem se manifestar de diversas formas. As mais comuns são: doenças neurológicas, ligadas ao aparecimento de doenças como Alzheimer, Parkinson e autismo”, alerta Patrícia.



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