Em alta, mercado de NFTs sofre críticas por danos ambientais
- Carlos Vinicius & Ellen Alves
- 6 de fev. de 2023
- 4 min de leitura
Atualizado: 9 de fev. de 2023
Vendas de NFTs movimentaram cerca de 24,7 bilhões de dólares em 2022, apesar do alto valor, empresas têm abandonado o uso do recurso devido aos impactos ambientais gerados em sua comercialização.

Tendência atual no mundo tecnológico, as NFTs (Non-fungible tokens ou tokens não fungíveis, em português) são ativos criados para garantir a exclusividade de um determinado bem, seja ele real ou virtual, ao comprador que obtém a obra de arte ou o objeto colecionável ofertado. A procura por NFTs representou uma grande demanda e um faturamento bilionário de US$ 24,7 bilhões em 2022, embora menor que no ano anterior, foi o suficiente para reforçar as críticas sofridas em relação à sua produção e armazenamento que contribuem em larga escala para o consumo de energia fóssil, altamente prejudicial ao meio ambiente.
Os impactos ambientais gerados através das transações financeiras de NFTs ocorrem devido à utilização da blockchain como plataforma que viabiliza a compra. O alto rendimento da blockchain é dado por meio da mineração de moedas virtuais, como as bitcoins, e para isso ocorrer é necessário um consumo de grande quantidade de energia. A advogada Elaine Keller, especializada em Direito Digital, afirmou em entrevista para o Estadão que as fazendas de mineração de cripto consomem muita energia. “A China é líder nesse mercado, mas se estima que metade desse trabalho é feita com energia oriunda do carvão, a mais nociva para o meio ambiente pela alta emissão de carbono para a atmosfera”.
A produção de apenas uma NFT consome o mesmo de energia que uma família durante um ano. Portanto, a alta demanda é também acompanhada por uma forte preocupação com as emissões de CO2 lançadas na atmosfera terrestre durante o processo.
Quando lançado excessivamente na atmosfera, a emissão do gás carbônico abre um alerta para a ocorrência de inúmeros fenômenos naturais ligados ao desequilíbrio ambiental. As condições do efeito estufa são completamente modificadas, o planeta Terra passa a reter mais calor, aumentando as temperaturas registradas e afetando o ciclo de chuvas, o que ocasiona longos períodos de secas e estiagem. O aquecimento global também tem como consequência a destruição da camada de ozônio, o que contribui para a chegada de raios solares extremamente tóxicos para o corpo humano, agente causador de doenças como o câncer de pele.
WWF é uma das pioneiras no abandono do uso de NFTs
Após receber muitas críticas de ambientalistas, a WWF (World Wildlife Fund) anunciou no início de 2022 a interrupção das vendas de NFTs devido à preocupação com os gases poluentes lançados na atmosfera. A ação da organização ambiental foi considerada inédita e, até então, se tornou a primeira a abandonar um mercado crescente, em que outras marcas estavam ingressando em grande número.
A WWF é uma organização não governamental que atua na área de preservação da natureza, por esse motivo a decisão de retirada do mercado de NFTs representou uma medida para a contenção de danos ambientais. A justificativa utilizada foi que, em somente uma transação, eram fornecidas 2.100 vezes mais gramas de carbono do que o indicado pela organização.
O feito também encorajou outras empresas a seguirem pelo mesmo caminho, como foi o caso da SEGA, companhia de jogos eletrônicos. A intenção da marca era de fortalecer a experiência dos jogadores implementando a tecnologia em seus produtos, porém a reação de seus consumidores não foi positiva e isso fez a marca reconsiderar sua posição.
Guilherme Borges, de 23 anos, faz parte da comunidade de jogadores de games eletrônicos. O jovem concordou com a atitude da SEGA de não utilizar mais as NFTs. “Como jogador fico feliz pela atitude tomada pela empresa, a consciência fica mais tranquila por não estar contribuindo diretamente com uma degradação enorme do meio ambiente”. O jogador também reforçou a importância das críticas feitas pelos consumidores dos jogos como fator crucial para a medida ser tomada. “Acredito que foi um posicionamento inteligente da SEGA, mas infelizmente ele aconteceu mais por conta da pressão exercida pela comunidade do que pela vontade própria da empresa”, concluiu.
Além da WWF e da SEGA, a Nike foi mais um conglomerado que descartou o uso das NFTs. Ações como essas têm consequências imediatas no mercado dos ativos, podendo refletir em quedas futuras e desvalorização das negociações. Uma alternativa encontrada para conter os impactos ambientais gerados pela blockchain tem sido o uso de energias renováveis como combustível para a mineração das moedas virtuais. Entretanto, a alta demanda por energia torna o mercado de NFTs ainda muito dependente de fontes não sustentáveis.
Ademais, o acordo cripto climático foi criado e inspirado no acordo de Paris, uma iniciativa liderada pelo setor privado para toda a comunidade cripto focada na descarbonização da indústria de criptomoedas e blockchain. Mais de 250 empresas apoiam o acordo e são participantes do mercado de cripto que assumem um compromisso público de alcançar emissões líquidas zero do consumo de eletricidade associado a todas as suas respectivas operações relacionadas à cripto até 2030.
O uso de NFTs pelas empresas
Os lucros obtidos pelo mercado das NFTs se mostrou atrativo para as empresas, nos últimos anos inúmeras delas acabaram aderindo ao sistema. Marcas como Balenciaga, Adidas, Coachella e Dolce & Gabbana comercializam e utilizam as NFTs para impulsionar os seus negócios. O produto também chamou a atenção de celebridades como Neymar e Justin Bieber, que adquiriram desenhos autênticos de primatas por milhões de dólares.

O poder de influência de celebridades e marcas contribuíram para uma propagação maior das NFTs para o público geral, um fator crucial para o impulsionamento do mercado. Alex De Vries, economista holandês e fundador do site Digiconomist, contesta a venda de NFTs e trata o ativo como um artigo de luxo para os seus compradores. “Quando você compra um NFT, o que você ganha? Porque qualquer um pode salvar uma cópia e você ainda é o dono. Ironicamente, foi o que aconteceu quando uma obra de arte foi vendida como NFT por 70 milhões de dólares. Todos os portais usaram a imagem da obra para dar a notícia. Na maioria das vezes, você só ganha o direito de dizer 'isso pertence a mim'. Frequentemente os direitos autorais não passam para você e, pior ainda, em alguns casos a obra comprada nem ao menos era propriedade de quem vendeu”, disse.
O especialista também revelou a sua preocupação com os danos obtidos pela tecnologia. “Você pode estar comprando uma coisa que não é de verdade, mas a compra tem um impacto bem real no mundo”.


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