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De qual Brasil vem a seleção brasileira?

  • Foto do escritor: Júlio César Barcellos
    Júlio César Barcellos
  • 22 de nov. de 2022
  • 5 min de leitura

Atualizado: 23 de nov. de 2022

Um olhar regional das convocações do Brasil em Mundiais.


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Na próxima quinta-feira, 24 de novembro, o Brasil estreia na Copa do Mundo do Catar. Do fundo do banco da seleção canarinho, um jogador que dificilmente deve entrar em campo ao longo da competição chegou a uma marca histórica: ele é o primeiro jogador nascido no estado do Acre a representar o país em mundiais. Weverton, de 34 anos, é goleiro do Palmeiras, atual campeão do Campeonato Brasileiro e compõe o grupo de 26 atletas selecionados pelo técnico Tite para a disputa do torneio no país do Oriente Médio.


Terceira opção para o gol brasileiro, ele deve ser preterido pelos estrelados Alisson e Ederson, goleiros de Liverpool e Manchester City, respectivamente. Mesmo sem figurar entre os jogadores mais badalados do grupo que representará o Brasil em terras cataris, o goleiro nascido na capital acreana escancara um quadro grave: a baixa quantidade de jogadores de fora dos grandes centros convocados para representar nosso país em mundiais.


São poucos os eventos que conseguem aflorar o sentimento nacionalista como uma Copa do Mundo. A competição, que ocorre a cada quatro anos, é capaz de grudar a nação junto à televisão ou ao rádio na expectativa de uma vitória de sua seleção. Um laço de pertencimento é criado e, sobretudo, no caso brasileiro, por mais distante que esteja, o torcedor passa a se sentir parte de tudo aquilo.


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Esse ideal de um selecionado nacional que represente a todos de nosso país, contudo, não passa de uma mera ilusão. Apesar da Copa ser assistida do Oiapoque ao Chuí, nem todos os brasileiros são realmente representados pela lista final de jogadores convocados. Isso é refletido em como, ao longo das copas, o histórico dos jogadores nacionais selecionados está ligado às questões geográficas em nosso país.


Falar sobre essa história, para muitos desconhecida, da seleção brasileira, é falar sobre a história de um preconceito socioespacial que tem efeitos até os dias de hoje. Dos mais de 300 jogadores escolhidos para defender o Brasil em Copas do Mundo, mais da metade se concentra nos estados do Rio de Janeiro e de São Paulo, com 100 e 111 selecionados, respectivamente. Enquanto isso, sete estados do país não têm um representante sequer na história dos mundiais.


O desafio não se limita a chegar a vestir a tão desejada camisa canarinho. Muitos, como o próprio Weverton, acompanham a campanha do selecionado nacional do fundo do banco. Chegar a jogar é um desafio, por outro lado, se manter entre os titulares, é um desafio ainda maior. É o que afirma Giovanni, meio-campista que defendeu a seleção brasileira na Copa de 1998, na França.


O ex-jogador do Santos e do Barcelona disse em entrevista ao programa “Bola da Vez”, da ESPN em 2018, “Na seleção, eu tinha que matar um leão, tem alguns jogadores que você dá dez chances”. Oriundo de Belém, capital do estado do Pará, o meia acredita que foi prejudicado devido à falta de suporte por parte da mídia após ser barrado do time titular devido a uma substituição ainda no intervalo da estreia da Seleção naquele Mundial.


Após um primeiro tempo sem brilho contra a seleção da Escócia, ele foi substituído pelo carioca Leonardo, que não foi mais tirado da equipe até o fim da competição. Pior para o Brasil, que foi derrotado na final da competição pelos anfitriões franceses. “Você barra um Giovanni, ninguém vai falar nada”, declarou o meio-campista Giovanni. O esquecimento e a falta do devido crédito são marcas notórias quando falamos de jogadores de fora do eixo Rio-São Paulo.


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Mesmo entre aqueles que ficaram de fora da lista final anunciada pelo técnico Tite no último dia 7 de novembro, o tratamento dado é completamente distinto. Todo um clamor popular, seja na imprensa ou não, foi criado após a não convocação do centroavante Gabriel Barbosa. Apesar das expressivas marcas conquistadas - entre gols, títulos e artilharias -, o agora camisa dez do Flamengo foi a ausência mais comentada.


No entanto, pouco se viu nas mesas de bar, programas esportivos e até mesmo nas redes sociais, o mesmo tratamento quando falamos de atletas de outras regiões do país. O alagoano Firmino foi o que ainda recebeu algum destaque. Já o paraibano Matheus Cunha, do Atlético de Madri, e o meia paraense Paulo Henrique Ganso foram raramente mencionados quando o tema foi abordado.


Entre as críticas à lista do treinador gaúcho, imprensa e torcida foram uníssonas no apontamento de um único nome: o baiano Daniel Alves. O experiente lateral é peça de confiança do treinador e só ficou de fora da lista da última Copa do Mundo por contusão. Com uma carreira vitoriosa por onde passou e com uma experiência que pode agregar dentro e fora de campo, levando em consideração que muitos do grupo que vai ao Catar farão sua estreia em mundiais, Daniel foi apontado por muitos como o grande erro dessa convocação.


A idade foi o fator apontado pela maioria como principal razão para uma não convocação do jogador. É de se admirar que a maioria dos críticos desapareça na hora de apontar o também defensor Thiago Silva. O carioca de 38 anos é uma das referências defensivas da equipe, sendo inclusive um dos capitães, e chega para a disputa de sua quarta Copa do Mundo. Tratamentos bastante distintos para casos que apresentam certo grau de semelhança.


E não dá pra dizer que a tradição a nível nacional menos distinta seja uma desculpa plausível para a não convocação de um atleta. A atualidade e mesmo a história provam o contrário. O capixaba Richarlison, camisa nove da equipe brasileira que vai buscar o hexa no Catar, é um bom exemplo. Ele só conquistou projeção com as camisas do América Mineiro e do Fluminense, equipes de estados mais “tradicionais”, antes de ser vendido para um clube de fora e, então, fazer carreira na Europa.


Um dos maiores na história da amarelinha também veio de um estado sem muito prestígio no âmbito futebolístico do país. Foi da cidade de alagoana de Atalaia, de menos de 50 mil habitantes, que saiu o multicampeão Zagallo. É muito difícil imaginar que o bicampeão como jogador (1958 e 62), campeão como técnico (1970) e ainda como coordenador técnico (1994) - o maior vencedor da história da Copa do Mundo da FIFA - teria a mesma carreira defendendo clubes alagoanos ao invés dos cariocas Flamengo e Botafogo, por exemplo.


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Falar sobre essa história das convocações é falar sobre orgulho, preconceito e, principalmente, de apagamentos que, propositais ou não, mudam o rumo de carreiras, competições e, diretamente, da história do Brasil em Copas do Mundo. É difícil imaginar as cinco estrelas na camisa canarinho sem a participação de jogadores das mais diferentes partes de nosso país.


Por sinal, já é mais que chegada a hora de vermos mais jogadores como Weverton e Richarlison - e também Firmino e Matheus Cunha - defendendo as cores de nossa seleção em Mundiais. Afinal, “A taça do mundo é nossa”, não de um grupo seleto de brasileiros limitados aos estados mais ricos e poderosos do país, mas sim, de todo o povo o brasileiro, de Norte a Sul do “país do futebol”.



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