Copa no Catar traz a tona elitização no acesso ao futebol
- Carlos Vinícius
- 12 de dez. de 2022
- 6 min de leitura
Atualizado: 16 de dez. de 2022
Considerado o evento esportivo de maior popularidade do mundo, a atual edição da Copa do Mundo apresenta estádios com assentos vazios e gastos excessivos aos visitantes. O fenômeno também ocorre no Brasil.

A Copa do Mundo de 2022 sediada no Catar já começou marcada por diversas polêmicas. O evento teve início em novembro e trouxe torcedores de diversas partes do planeta para acompanhar os jogos. Já considerada como a edição com os ingressos mais caros da história do torneio, os estádios que recebem os jogos aparecem com uma grande quantidade de cadeiras vazias, o que abre margem para uma discussão acerca do processo de elitização que o futebol vem sofrendo em sua esfera.

Embora anunciado pela Federação Internacional de Futebol (FIFA) que as arenas têm sido ocupadas totalmente, às vezes com um número de público maior que sua capacidade, o que tem sido visto pelas transmissões é algo totalmente diferente. Para assistir a sua seleção nacional, os torcedores precisam desembolsar um valor superior ao do salário mínimo brasileiro para cada ingresso. Ainda existem os custos referentes às passagens aéreas, alimentação e hospedagem. Outro fator que limita completamente a presença do público ao evento, tornando inacessível para classes com poder aquisitivo mais baixo.
“O elitismo no futebol é fruto da prática capitalista que transformou os jogos em espetáculos mercadológicos para poucos.”, descreveu Affonso Henriques Nunes, professor de Jornalismo Esportivo da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj). O profissional expressou o quão excludente é o evento sediado no Catar: “A Copa do Mundo 2022 no Catar é elitista principalmente porque o lugar escolhido pela Fifa para sediar o evento por si só possui um custo de vida proibitivo para o torcedor comum. Alguém que queira assistir aos jogos deve reservar uma média de R$ 400,00 por dia para despesas mínimas, sem contar as estadias em hotéis mais baratos. A Copa dura cerca de 30 dias e o custo para ir ao Catar acompanhar o evento por esse período ultrapassa os 40 mil reais. Os ingressos mais baratos para a final, por exemplo, custam 2.200 riales catarinos, cerca de R$ 3.100,00”, afirmou.
Conhecido como o esporte mais popular do mundo, o futebol sempre configurou uma relação muito próxima com o seu público desde suas origens. Foi assim que rapidamente caiu nas graças da população mais pobre de diversos países, sobretudo no Brasil, permitindo uma participação efetiva no que tange à prática e presença nos estádios para acompanhar as partidas ocorridas. O fortalecimento de sua atividade sempre esteve atrelado à democratização ao acesso, um espaço que permitiu a possibilidade de ascensão social para classes sociais menos favorecidas da sociedade. Atualmente, o que é visto é um afastamento cada vez maior dessa relação entre o futebol e o povo, o acesso ao esporte tem se tornado cada vez mais difícil.
Nunes ainda relacionou a situação vivida no Catar com a do Brasil, que também sofre o mesmo processo de elitização ao acesso do futebol: “O prejuízo maior é para o futebol em si. Em países pobres como o Brasil, o chamado povão é que alimenta o esporte, mas essas pessoas tiveram seu acesso aos estádios barrado pelos altos custos dos ingressos e lhes sobrou assistir a seus times preferidos pela televisão. Ou seja, o futebol passou a ser mais uma forma de exclusão social de uma classe baixa que, ironicamente, é a origem da maioria dos jogadores de futebol que são aplaudidos em estádios milionários.”, completou.
Elitização do futebol no Brasil
A ida aos estádios, um dos maiores símbolos de demonstração de paixão do torcedor pelo seu clube, virou uma missão difícil até para os mais apaixonados no Brasil. O valor dos ingressos aumentou consideravelmente nos últimos anos, sobretudo após a modernização dos estádios brasileiros para a Copa do Mundo de 2014, o que acarretou em uma mudança de perfil das torcidas de clubes nacionais e uma frequência menor de público considerado popular.
Osmar Otávio, de 38 anos, é torcedor do Vasco e tem comparecido cada vez menos nos jogos do time em São Januário, devido à baixa capacidade do estádio que tem seus ingressos esgotados com rapidez pelos sócios do clube, que ganham prioridade na compra: “Esse ano só consegui ir em dois jogos do Vasco, um em São Januário e o outro no Maracanã, está cada vez mais difícil de comprar ingresso, quando ele é liberado pro público em geral já está esgotado. Só consegue ir com frequência quem é sócio e faz planos com valores mais altos”. O vascaíno também relatou o seu medo de ter os ingressos ainda mais caros para o ano que vem: “Mesmo jogando a Série B esse ano, os valores dos ingressos estavam mais altos que em anos anteriores, a tendência é que suba ainda mais com o acesso para a Série A”, contou.

Sediada no Brasil em 2019, a Copa América também chamou a atenção por possuir uma média de público muito baixa para a padrão da competição, uma taxa de 47,5% de ocupação dos estádios, o que indica menos da metade dos assentos utilizados. Apesar disso, o valor de arrecadação foi alto, cerca de R$111 milhões, isso se deve ao valor exorbitante cobrado pelo ingresso: a entrada mais barata custava R$120 e a mais cara R$350, esse valor ainda triplicou no jogo da final. Apenas dois estádios tinham um setor popular, com ingressos custando a partir de R$60. Um indicativo de quanto o torneio ignorou a realidade social vivida no país, privando uma grande quantidade de brasileiros de acompanhar as partidas pelos estádios.
A Confederação Sul-Americana de Futebol (CONMEBOL), organizadora da Copa América, também trouxe novidades nos últimos anos na Libertadores, seu torneio continental de clubes. Desde 2019, a final da competição acontece em jogo único com sede em uma cidade escolhida, uma medida que tem gerado dificuldades para torcedores acompanharem seu time fora do espaço onde vivem. Além do valor elevado do ingresso, também entram os custos referentes à viagem.
Paulo Carvalho, de 23 anos, mora em Brasília e é torcedor do Flamengo, campeão da última edição da Libertadores em uma final contra o Athletico Paranaense, ocorrida em Guayaquil, no Equador. O flamenguista até cogitou acompanhar de perto o título de seu clube, mas foi barrado pela dificuldade de se locomover até o país: “Era um sonho muito grande poder assistir ao jogo no estádio, mas essa logística foi um empecilho. Uma viagem para outro país teria que ser algo planejado com bastante antecedência, coisa que o calendário da competição não permite. Os gastos com a viagem seriam além do que eu poderia pagar, o que poderia ser diferente caso a final ocorresse no Brasil, na casa dos finalistas”, relatou.
Para além dos altos valores cobrados em ingressos e de logísticas que impedem o torcedor de ter acesso às partidas de futebol, acompanhar as transmissões dos jogos pela televisão também tem custado caro. Plataformas de pay-per-view e de streaming oferecem planos para transmitir os jogos, restringindo sua exibição na TV aberta. Os preços das camisas de futebol também têm alcançado valores expressivos, principalmente no período atual de copa do mundo, em que uma peça da Seleção Brasileira está custando em média R$300, cerca de 24,6% do salário mínimo.
Uma alternativa encontrada para contornar a situação tem ganhado força nas redes sociais durante os últimos meses, a procura por camisas de futebol em lojas virtuais, como a Shopee, nunca alcançaram números tão positivos. Os produtos encontrados não são originais, mas funcionam como réplicas quase idênticas às camisas que são achadas em lojas oficiais, além de possuírem preços mais populares.
Ariana Chagas, de 36 anos, é torcedora do Flamengo e teve dificuldades de obter a camisa do clube, os títulos recentes obtidos tornaram o produto ainda mais valorizado: “É cada vez mais difícil comprar acessórios do Flamengo, é tudo muito caro, entendo que pelo sucesso esportivo os valores das camisas tendem a ser mais caras, mas não cabe no bolso de todo mundo. Comprar em lojas não oficiais ou online acaba se tornando uma saída para poder vestir a camisa do meu time”, revelou.
As situações ocorridas no Catar não são exclusivas do país, apesar de estarem em evidência por conta da Copa do Mundo de 2022, as ações são apenas reflexo do que tem se tornado o esporte de maior popularidade no mundo, o futebol. Com o mercado financeiro sendo priorizado frente aos valores proporcionados pelo esporte, a tendência é que a elitização do acesso ao futebol se torne ainda maior nos próximos anos.


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