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Caso Americanas gera alerta no setor varejista

  • Ana Júlia Brandão & Vitória Luna
  • 6 de fev. de 2023
  • 4 min de leitura

Atualizado: 8 de fev. de 2023

A recente descoberta de inconsistências em lançamentos contábeis da empresa, estimadas em cerca de 20 a 40 bilhões, tem levantado questões sobre o futuro da economia nacional e dos mais de 40 mil funcionários da companhia.


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Foto: Reprodução Internet

A Americanas S.A se tornou alvo de investigações após a constatação de um rombo financeiro de, no mínimo, 20 bilhões de reais nos balanços da empresa. Com o escândalo, a companhia, responsável por uma série de marcas do setor varejista, vem enfrentando uma crise de ações no mercado, já sentida nas quase duas mil unidades distribuídas pelo país e nas plataformas online. No entanto, os prejuízos vão muito além de questões administrativas e têm levantado debates sobre as consequências para colaboradores.


Os funcionários da companhia, que foram orientados a não dar entrevistas sobre o assunto, vivem às cegas em uma eterna expectativa e sem saber o que esperar dos próximos desdobramentos. A empresa promete que não fará demissões em massa até, pelo menos, o mês de março, mas falha ao passar segurança para seus funcionários.


“Me sinto inseguro e com medo do que pode vir por aí, tive que adiar alguns planos que envolviam gastar uma maior quantidade de dinheiro até o momento que eu estiver com um pouco mais de confiança e segurança nos rumos da empresa. Tem dias mais difíceis, principalmente quando sai alguma notícia alarmante na imprensa. Aquele chorinho preso na garganta, sabe? Mas sempre pensando: 'Calma. Vamos em frente que vai dar tudo certo!’.”, relata um funcionário da organização, que prefere não ter a identidade revelada.


Referência quando o assunto é varejo, a Americanas se consolida tanto no e-commerce, quanto em pontos físicos espalhados por todo o Brasil. A empresa conta com cerca de 44 mil funcionários, além de 64,8 milhões de reais em dívidas trabalhistas, alarmando e preocupando ainda mais todos aqueles que fazem parte do corpo da companhia. São 44 mil pessoas e famílias que podem ficar desamparadas.


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Reprodução: Twitter

Para não declarar falência, a companhia entrou em um processo de recuperação judicial, que permite a suspensão ou renegociação de parte das dívidas acumuladas durante um período de crise financeira. Assim, mesmo que feche as portas definitivamente, os trabalhadores ainda terão prioridade na restituição de valores.


O colaborador ainda reforça que não há um retorno concreto da Americanas em relação à situação, nem mesmo internamente: “Não há nenhum posicionamento vindo da empresa, pois acredito que não há certeza de nada e muita coisa muda o tempo todo. Mas os funcionários descobrem as coisas junto com vocês, pois nosso único meio de informação no momento é a imprensa e os canais que tratam sobre investimentos.”.


Mesmo com os servidores resguardados pela justiça, o processo pode se alongar por anos. Neste contexto, a principal alternativa, geralmente escolhida pelas corporações em situações similares, é a demissão em massa, prática facilitada pela Reforma Trabalhista, sancionada em 2017 durante o governo Michel Temer.


O futuro das lojas de rua da empresa, assim como o de todo o conglomerado, ainda é um mistério. Os milhares de pontos físicos são distribuídos por todo o Brasil, e podem ser achados em pequenas e grandes cidades. No dia 3 de fevereiro, o sindicato dos comerciários organizou uma manifestação em frente a sede comercial da Americanas que mobilizou centenas de funcionários das lojas espalhadas por toda a cidade.


O local em que o protesto foi realizado é simbólico, já que o endereço pertencia a uma antiga organização, também líder de varejo, da década de 1980, a Mesbla, que faliu no início dos anos 2000. Os manifestantes se reuniram pedindo por um posicionamento da empresa, além de exigirem que os bolsos dos três dos homens mais ricos do país, e também diretores e acionistas da empresa, sejam afetados.


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Foto: Reprodução Internet
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Foto: Reprodução Internet

A especialista em economia urbana, Ângela Penalva, afirma que as consequências no setor doméstico do país serão notáveis, levando em conta a grande empregabilidade da Americanas S.A. em todo o Brasil. “O impacto previsto é grande (…) os terceirizados já perderam os empregos, isso afeta esses trabalhadores e repercute nos negócios locais, claro.” (…) “O varejo, em geral, pode ser atingido pelo temor do que atingiu as Americanas. Mesmo sem falar nas chamadas ‘inconsistências no balanço’, houve uma queda na renda das famílias e, ao mesmo tempo, uma elevação na taxa de juros, o que encarece muito as parcelas do crediário.”, explica ela.


Já Alexis Toríbio, economista e professor da Faculdade de Ciências Econômicas da Uerj, ressalta a incerteza da crise que as Lojas Americanas enfrentam e que a probabilidade de que o caso afete, além da rede, todo o setor varejista é consideravelmente grande. “O que vai acontecer com as lojas de rua ainda é incerto, provavelmente irá sim ocorrer redução nos pontos físicos e isso pode gerar uma redução da concorrência. A expectativa é que haja uma redução muito grande da capacidade de venda das Lojas Americanas, portanto, a redução de pontos espalhados no comércio e o impacto para os concorrentes vai ser grande e negativo.”


Toríbio também afirma que o impacto para a economia do Brasil, de forma geral, não é tão significativo quanto aparenta, mas que pode afetar regiões específicas.


“O impacto para a economia, como um todo, pela Americanas em si, é muito pequeno. Embora seja uma grande empresa, ela não é tão significativa para o PIB nacional, então o impacto vai ser, fundamentalmente, via emprego. No ponto de vista amplo é um impacto pequeno, mas quando levamos em consideração a realidade do Rio de Janeiro e de São Paulo, isso pode ser extremamente maléfico.”.


Atualmente, de acordo com os autos do processo de recuperação fiscal que a empresa vem enfrentando, o dividendo total, que engloba o rombo contábil de 20 bilhões e outras dívidas, gira em torno de 47,9 bilhões de reais. A empresa anunciou o afastamento de Anna Saicali, que comandava a Ame Digital; Timotheo Barros, que era diretor de lojas físicas, logística e tecnologia; e Marcio Cruz, diretor de digital, consumo e marketing.


De acordo com nota enviada à imprensa, a empresa procura garantir a integridade das informações dos processos e de todos os envolvidos: “Várias medidas foram implementadas com o objetivo de garantir a integridade da preservação de informações e documentos da Companhia, tudo com o objetivo de contribuir plenamente com as apurações em curso e autoridades envolvidas.”.


O Gazetari entrou em contato com a Americanas S.A em busca de um posicionamento sobre o futuro da empresa e, principalmente, de seus trabalhadores, mas até o fechamento desta matéria, não obteve resposta.



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