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Avanços em IA geram dilemas no mundo artístico

  • Emilly Veiga & Lyandra Pralon
  • 18 de jan. de 2023
  • 6 min de leitura

Atualizado: 4 de fev. de 2023

Após a vitória de uma obra criada por inteligência artificial em um concurso, artistas se manifestam nas redes sociais e levantam questionamentos sobre o futuro da arte.


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Théâtre D’opéra Spatial/Jason M. Allen

Artistas se revoltam e protestam em sites de artes e em hashtags nas redes sociais após imagem produzida por inteligência artificial (IA) ser premiada na categoria de artes digitais. A manifestação foi iniciada pelos artistas Nicholas Kole e Imogen Chayes na plataforma ArtStation, uma das maiores comunidades on-line para ilustradores, e ganhou força em questão de horas.


A obra, intitulada ``Théâtre D’opéra Spatial'', de Jason Allen, foi feita por meio do programa Midjourney, capaz de transformar frases em imagens, apenas escrevendo alguns comandos de texto. A premiação ocorreu no concurso de arte da Feira Estadual Anual do Colorado, nos Estados Unidos.


Para expressarem sua insatisfação com a vitória da obra de Allen, ilustradores se reuniram nas redes sociais através da hashtag “notoaiart” e “saynotoaiart”, além de publicarem diversas artes em protesto nas plataformas que oferecem abertura para obras produzidas por inteligências artificiais.


Diversos questionamentos surgiram sobre o assunto, seja em relação à dúvida se havia elemento humano ou não na arte, ou sobre a categoria inadequada que a imagem feita pela IA concorreu, sendo injusto com outros competidores.


Para o professor e coordenador da Faculdade de Comunicação Social da Universidade do Estado do Rio de Janeiro, Ricardo Benevides, a discussão não pode ser limitada a apenas ser justo ou não com artistas, como vem ocorrendo na internet. “Temos que pensar em regras e aspectos para concursos, mesmo para valorização ou desvalorização de alguma peça, sendo feita por homens ou máquinas”, afirma ele. “O que me parece é que a situação precisa ser colocada em escala diferente, ser avaliada de forma diferente como resultado”, completa.


Criada originalmente por Alexander Nanitchkov, a imagem da campanha tem os seguintes dizeres: “no to AI generated images” (“não às imagens geradas por IA”).

A resposta da ArtStation, plataforma de acervo artístico onde foi iniciado o protesto, não agradou muito os manifestantes. Em comunicado reforçou que o usuário deve publicar trabalhos de sua propriedade ou autorizados pelo autor original, mas as suas diretrizes não impedem que a IA seja usada como ferramenta para isso.


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Acervo: Artstation

Segundo o casal de artistas Isabella Alves, formada em design de moda e dona de uma página de arte no Instagram “Não Sou Artista”, e Leonardo Castro, artista 3D, a vitória de Allen não foi correta. “A gente não sabia disso, pesquisamos sobre e não achamos certo. Quem criou essa arte usou da IA como ferramenta para sua ideia, mas mesmo assim outros artistas (principalmente os menores) mereciam mais reconhecimento por estarem no meio artístico de fato”, explica Leonardo.


De um ponto de vista mais técnico, Benevides reforça que a vitória da obra de arte de Allen não é algo que lhe agrade, mas também não acredita que seja um grande drama. “Seria a contrapartida ao que uma arte mais industrial, que foi discutida com o Marcel Duchamp com a obra ‘A Fonte’, feita de algo já pronto, que discute justamente isso, o fato que a arte pode ser resultado do olho de alguém”, afirma Benevides.


O coordenador traz como exemplo uma pessoa que encontra um objeto bonito e o utiliza como decoração. “Esse item numa medida se torna arte. E aí vem a pergunta: quem é o artista? É Deus? O que fez a pedra? Ou foi a pessoa que encontrou a pedra e viu arte nela? Viu beleza nela? Então aí tem uma questão”, conclui ele.


No Twitter, um perfil fez uma crítica às pessoas que aderiram ao uso de IAs. Para ele, as pessoas que usam esses programas para criação de arte, estariam retrocedendo no processo criativo por não se esforçarem para aprender a usar aplicativos mais difíceis.


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“Estamos evoluindo ao contrário.”

Outro usuário demonstra sua indignação com a propaganda de um aplicativo que produz artes por meio de IAs no seu perfil do Twitter, que é voltado para a divulgação de seu trabalho de ilustrador.


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“Artistas - podemos fazer algum barulho no Twitter agora? Não dá nem para inventar isso. Isso é um tweet promovido, uma das primeiras coisas que as pessoas veem quando clicam no meu perfil. Estou indignada.”

Insegurança com o avanço da tecnologia na arte


A produção artística por meio de IAs está evoluindo rapidamente junto com a insegurança dos artistas tradicionais de perderem seu espaço e reconhecimento. Entretanto, na visão do casal de artistas, ainda não se pode dizer que o sucesso das artes feitas por inteligências artificiais é prejudicial. Para eles, é possível equilibrar a participação de computadores e humanos no mundo artístico.


“É possível que haja prejuízo por causa do olhar das empresas sobre essa nova ferramenta. Uma empresa pode achar mais rápido e/ou barato usar IA para fazer arte do que contratar um artista. Mesmo assim, vendo por um lado otimista, em algum momento vão precisar dos artistas para fazer melhorias em artes feitas por IA”, explica Leonardo. “Achamos que essa novidade pode agregar dessa forma. Sem contar que futuramente pode ser usada como mais uma ferramenta de criação, então nem tudo tem seu lado negativo. No momento não nos sentimos ameaçados por arte IA, mas futuramente pode ser que sim”, reforça Isabella.


Já segundo o professor Benevides, seria difícil especular se haveria esse prejuízo para artistas tradicionais. “As novas tecnologias de inteligência artificial que estão voltadas para as práticas artísticas são muito novas. Então não dá para entender como que o segmento de empresas vai atuar. Mas, pegando as experiências anteriores envolvendo grandes companhias, ninguém faz um investimento em algo assim esperando não ter muito retorno”. Para ele essa preocupação também é válida, embora não seja algo que vá ter muita, ou alguma, certeza, por ser algo muito novo e não dar para prever o que será o futuro.


Arte no piscar de uma inteligência artificial


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Imagens geradas por IA/Midjourney

Um dos temores das pessoas é a facilidade com que a máquina produz uma imagem. A inteligência artificial pode reproduzir um estilo em segundos, diferente de uma pessoa que, para imitar um estilo, precisa de semanas de treinamento. Com a IA, a produção é muito mais rápida.


De acordo com Lucas Rolim, diretor de Data & Analytics no Hurb, a inteligência artificial funciona aprendendo e reproduzindo padrões. "Para isso acontecer, é necessário alimentar os chamados modelos de aprendizado de máquina com enormes volumes de dados, os quais serão utilizados na etapa chamada de 'treinamento' da IA", explica.


Na visão do diretor, modelos famosos como o DALL-E 2, que geraram as imagens mais realistas, utilizam centenas de milhões de imagens e textos retirados da internet em seu processo de aprendizado. "Dessa maneira, o modelo de aprendizado de máquina vai criando associações entre textos e imagens. Simplificando, é como se a IA estivesse criando e reforçando suas sinapses do cérebro para aprender algo", afirma. "Após o processo de desenvolvimento, a arte se torna simples para a IA", completa Rolim.


Do ponto de vista de Leonardo, a inteligência artificial não somente aprende e é influenciada, como ocorre com artistas humanos, ela rouba seus traços e essência. Com esta máquina, você pode produzir centenas de artes por semana. “Falta o fator humano que é o sentimento. Fazer arte não é só reproduzir técnica/imagens”, conclui o artista 3D.


Segundo o professor Benevides, a arte sempre foi uma forma das pessoas expressarem o espírito do tempo, de entenderem quem são. “O artista jamais será obsoleto diante da inteligência artificial que produz uma arte, porque por mais que ela se aprimore, continua não sendo capaz de produzir a arte no contexto da explicação do humano na sua vida em sociedade”.


IA apenas como uma ferramenta


Quando questionado sobre o dilema das imagens criadas pelo Midjourney serem consideradas arte ou não, o diretor de Data & Analytics pontuou que a arte é uma forma de se expressar, carregando consigo referências e intenções do artista. Para ele, a arte gerada por IA não é diferente das demais, pois ela é uma ferramenta.


"Cada vez mais cresce a disciplina chamada 'prommpt engineering', que nada mais é do que a habilidade de digitar as coisas certas para fazer o modelo gerar o tipo de imagem que você deseja", explica Rolim. "Esses textos são uma forma de expressão genuína. Vejo como se poetas ou escritores tivessem mais acesso agora a dar forma e visão a algumas de suas ideias, criando uma nova maneira de expressão," reforça.


Para a artista plástica Isabella, é mais interessante o avanço e a divulgação que o acesso às IAs oferece do que a arte feita por ela. “Não concordo em parte, é muito interessante ver o avanço dessa tecnologia, mas acho que uma arte 'robotizada' perde o sentido e é bem limitada em expressão”, afirma a artista.


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